ROMANTISMO
O Romantismo foi um movimento literário de grande repercussão na literatura ocidental, e, particularmente no Brasil, constituiu uma etapa decisiva na formação de nossa literatura.
O Romantismo foi um movimento rico, com múltiplos desdobramentos, mas há uma característica que distingue o escritor tipicamente romântico de todos os outros – o gosto pela confissão plena dos sentimentos, das emoções que povoam seu mundo interior, numa atitude individualista e profundamente pessoal. Embora essa característica possa ser encontrada em escritores de qualquer época, inclusive na nossa, é no século XIX que ela atinge maior intensidade, tornando-se um elemento identificador do Romantismo como estilo de época.
Contexto histórico
O Romantismo está relacionado a dois acontecimentos que mudaram a face da Europa: A Revolução Francesa e a Revolução Industrial, responsáveis pela consolidação da burguesia, que, infiltrando-se aos poucos na aristocracia, começou dominar a vida política, social, econômica e cultural.
O absolutismo cedeu lugar ao liberalismo, corrente filosófica fundamentada na crença da capacidade individual do homem. Por isso, o individualismo tornou-se um valor essencial para a sociedade da época. Em termos econômicos, o liberalismo pregava a livre concorrência.
A Revolução Industrial, por sua vez, gerou novos inventos com o objetivo de solucionar os problemas técnicos decorrentes do aumento de produção, provocando a divisão de trabalho e o surgimento da mão-de-obra especializada.
O progresso político, econômico e social da burguesia preparou terreno para o Romantismo, fenômeno cultural baseado na liberdade de criação e expressão, na supremacia do indivíduo, na desobediência aos padrões preestabelecidos.
Se de início os artistas que se denominavam românticos aceitaram as idéias da burguesia, mais tarde demonstrariam descrença e frustração diante da realidade forjada pelo espírito burguês. Por isso o Romantismo apresenta, às vezes, características contraditórias.
Tendo surgido na Alemanha, o movimento romântico conquistou a Inglaterra, a França e, posteriormente, todos os países europeus, de onde se difundiu para a América.
Não se pode imaginar que o Romantismo tenha sido uniforme. Foi um estilo rico, diversificado e muitas vezes contraditório.
Três componentes resumem o processo criativo dos românticos: paixão, emoção e liberdade, todos relacionados a uma subjetividade tão forte como nunca se tenha notado na arte ocidental.
Dessa subjetividade decorrem as características básicas dos textos românticos.
1 – Liberdade de criação
Mais que uma característica, trata-se de uma postura diante da arte e da vida. Se no Classicismo e no Arcadismo a norma era a imitação da arte greco-romana, considerada como modelo, no Romantismo o escritor rejeita qualquer modelo (nega o princípio de mimesis (imitação) e procura expressar-se por uma atitude pessoal, individual, que pretende ser única.Para os românticos, expressar-se significa exprimir sua personalidade, independentemente de quaisquer regras.
Esta característica só pode ser observada se compararmos um texto romântico com textos que se enquadram nos estilos de época anteriores ao Romantismo.
2 – Sentimentalismo
Enquanto o artista clássico analisa e expressa a realidade sobretudo através da razão, o romântico vale-se dos sentimentos. Por isso, é o sentimento de cada um que define a importância ou não das coisas.
3 – Supervalorização do amor
É a conseqüência mais imediata do sentimentalismo. O amor é considerado como a coisa mais importante da vida, em flagrante oposição ao valor mais cultivado pela burguesia: o dinheiro. Perder o amor significa perder o sentido da vida. Essa perda provoca basicamente três conseqüências: a loucura, a morte ou o suicídio, situações comuns em epílogos de romances românticos.
4 – Idealização da mulher
A mulher – objeto do amor romântico – é divinizada, cultuada, pura, aparecendo às vezes envolta numa atmosfera de mistério.
5 – Mal do século
Apalavra é uma tradução aproximada do termo spleen, que surgiu na Inglaterra e esteve em moda em toda a Europa no período romântico.
O mal do século origina-se basicamente de dois fatores. Um deles é a idéia aceita pelos românticos de que o espírito humano busca sempre a perfeição, a totalidade, o absoluto, o infinito. No entanto, sendo humanos, somos incapazes de atingir esse estado. A constatação dessa impossibilidade gera a angustia que caracteriza o mal do século. Outro fator é o desajuste do indivíduo na sociedade burguesa, que se revelava muito prática e objetiva, em oposição ao sentimentalismo exacerbado dos românticos. Desse desajuste social resultam:
a) pessimismo em relação à sociedade e a si mesmo;
b) prazer em sentir-se melancólico e sofrido;
c) busca do isolamento, da solidão.
Procurando saídas para esse desequilíbrio, as personagens de obras românticas desenvolvem mecanismo de evasão da realidade.
6 – Evasão ou escapismo
A evasão no tempo conduz a imaginação do escritor e da personagem romântica ao passado histórico de seu país ou ao passado individual de cada um (infância e adolescência).
Na volta ao passado histórico, o romântico europeu vai redescobrir a Idade Média, que ele idealiza como sendo uma época de estabilidade política e social. Tipos medievais como o cavaleiro das cruzadas e os monges reaparecem nas obras do Romantismo como personagens-símbolo dessa época.
Na Idade Média o escritor romântico europeu encontra também as origens de cada nação. Desse processo resulta o nacionalismo, uma das mais importantes características da literatura romântica.
A religiosidade,especialmente a proposta pelo cristianismo medieval, também se recupera nos textos românticos como conseqüência dessa volta ao passado.
Portanto, da volta ao passado histórico resultam as seguintes características observáveis em textos românticos:
a) Recuperação da cultura medieval,no Romantismo europeu;
b) exaltação da nacionalidade(nacionalismo),com a idealização do povo, aos heróis nacionais, da paisagem física;
c) religiosidade,de preferência aquela derivada do cristianismo.
Já no plano individual, o romântico volta-se para a sua infância ou adolescência, que é valorizada como um período seguro, sem preocupações, repleto de pureza e inocência.
A criança e o selvagem são vistos como modelos de inocência,pureza e bondade,porque ainda não teriam sido corrompidos pela sociedade.
Da volta à infância decorrem duas características dos textos românticos:
a) saudade e supervalorização da infância;
b) supervalorização do homem em estado selvagem.
A evasão no espaço conduz a imaginação romântica –tanto de autores quanto de personagens – para paisagens novas,estranhas e primitivas.
A natureza é concebida como um espaço ainda não corrompido; por isso, é sempre descrita como um espetáculo grandioso e tida como local de refúgio para o solitário.
Decorrem daí,no texto romântico:
a) exaltação da natureza;
b) valorização da natureza como refúgio seguro e sereno.
Outra maneira de evasão no tempo e no espaço é refugiar-se no sonho9,no devaneio, verdadeiros substitutos para a vida real.
Finalmente, o mais radical e definitivo de todos os processos de escapismo:a espera ou evocação da morte.
7 – Escolha de heróis grandiosos.
O Romântico exalta personagens históricas que foram incompreendidas em sua época. A obra que inaugura o Romantismo português, por exemplo, é um longo poema narrativo sobre a vida de Camões, poeta renascentista que viveu miseravelmente.
8 – Aceitação do mistério
O romântico admite a ocorrência de fatos inexplicáveis, fantásticos, sobrenaturais e os incorpora em suas obras.
9 – Subjetivismo
A realidade é vista através da atitude pessoal do escritor.Não existe a preocupação em fazer um retrato fiel e verídico da realidade, pois esta é oferecida, ao leitor, filtrada e mesmo distorcida pelas emoções do autor. O artista romântico é subjetivo porque cria mundos imaginários onde se refugia, usando sua capacidade criadora e sua emoção.
10 – Reformismo
Insatisfeito com seu mundo, o poeta propõe-se a mudá-lo, influenciado pelas correntes libertárias da época. Ansiando por grandes feitos que lhe tragam a glória, o poeta romântico dedica-se a causas sociais, como a abolição da escravatura, a república, etc.
11 – Fé
Em lugar da razão, os românticos cultivam a fé cristã e os ideais religiosos. A religião é um modo de integração do ser humano a Deus.
Fases do Romantismo português
Os quarenta anos de manifestação do Romantismo em Portugal, didaticamente, costumam ser divididos em três períodos: início ou momento de instalação do movimento ( quando ainda há traços do estilo anterior); apogeu e declínio ( quando traços do novo estilo começam a se fazer notar) e a fase de transição para o Realismo.
1ª fase – ( de 1825 a 1838): momento, ainda, em que atuam os valores neoclássicos. São representantes dessa fase Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho
2ª fase ( de 1838 a 1860): período em que as características do movimento romântico chegam ao exagero. Camilo Castelo Branco é seu principal representante.
3ª fase ( de 1860 a 1865): fase de transição para o Realismo. Algumas das obras de Camilo Castelo Branco apresentam características realistas ( como veremos mais adiante). Esse período tem como representantes Júlio Dinis e João de Deus.
terça-feira, 9 de junho de 2009
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